Eu poderia ter trocado a viagem de navio, que começou ontem pouco antes das seis da tarde, por um pulo entre Tampere e Estocolmo feito por meio de um avião. Hoje em dia, creio que poucos entendem quando, voluntariamente, trocamos a conveniência e a rapidez de um vôo por uma viagem de navio, que dura 12 horas ao invés de uma.
Ontem, até o momento que subi no ônibus, às 17:42, eu estava correndo como uma doida, preparando as malas, a comida, repassando mentalmente tudo que eu deveria ter empacotado para ter a certeza de que nada importante ficou para trás. Importante mesmo, se for pensar, é dinheiro e passaporte, mas o celular ajuda. Enfim, até às 17:42, quando eu dei um beijo apressado no Matias e subi no ônibus, meu ritmo estava acelerado, como normalmente é a vida de uma jovem adulta de 26 anos.
Mas assim que sentei na cadeira do ônibus número 3, vazio como é de costume nos fins de semana, me dei conta de que dali para frente a pontualidade escandinava estava a meu favor, e de que eu podia relaxar.
Duas horas de trem até o porto de Turku, uma breve espera depois de fazer o check-in para o navio Isabella, e eu estava em minha cabine, a mais barata, compartilhada com outras três mulheres. Nenhuma cigana fedida, como a mãe do Matias torceu para não acontecer, mas a russa que não falava nenhuma palavra em inglês, apesar de simpática, poderia ter escolhido uma blusa de algodão para a viagem.
Deixei minhas coisas na cabine e fui andar pelo navio para me distrair e afastar o medo de ter enjôos por conta do balanço do mar. Liguei para o Matias para compensar a curta despedida na parada de ônibus, e, aproveitando a tarifa zero para ligações para a mesma operadora, conversei besteira por meia hora. Só ouvirei a voz dele de novo daqui a dez dias, quando voltar a Tampere.
Se eu estivesse viajando de avião -- e eu poderia, já que a universidade estava disposta a bancar a passagem Tampere-Estocolmo -- não sairia no sábado à tardinha, mas sim no domingo de manhã, já que preciso estar em Uppsala às 14h do domingo, para encontrar com os outros voluntários para a organização da conferência. Se estivesse no avião, estaria agarrando os braços da cadeira, com medo de um acidente. Também estaria presa a um banco pequeno, apertado até para mim, uma pequena mulher de 1m62 de altura e 56kg. Teria passado por um esquema de segurança maluco, que não me deixaria trazer meu shampoo finlandês para a cabine, nem meu fiel canivete suíço.
Mas mais do que o desconforto de uma viagem de avião, a pressa em chegar teria me roubado exatamente o tempo que ganhei e que me permite escrever estas palavras aqui e agora.
Os sinos das igrejas seculares do lado do palácio da cidade acabaram de bater 8h da manhã, com musiquinha que me lembra um filme de Natal. Mas o sol gostoso de uma manhã perfeita de verão faz com que a semelhança com o Natal termine aí. É domingo, e só de vez em quando escuto o barulho dos carros. Logo que saí do barco, às 6h30 da manhã do horário local, havia ainda menos gente na rua. Muitos ciclistas, mas bicicleta não faz barulho. Meu trem para Uppsala só sai ao meio-dia, o que me permite enrolar o tanto que quiser, onde eu quiser. É um privilégio que só pode ser aproveitado no verão, ao menos aqui nas altas latitudes.
Acompanhada das gaivotas, de uns poucos trabalhadores com coletes fosforecentes (seriam seguranças do palácio?) que riem e falam razoavelmente alto, em sueco, sobre algo que não entendo (provavelmente sobre nada -- sobre o que mais falariam numa preguiçosa manhã de domingo?), dos ciclistas e corredores matutinos, e de um ou outro turista que chegou muito cedo a Estocolmo, estou aqui, sentada ao pé da estátua de Gustav III, aproveitando o tempo que ganhei com uma escolha acertada, permitindo-me simplesmente existir e escrever, sem aquele constante sentimento de que eu deveria estar fazendo outra coisa.
Voar é para os pássaros. Eu, eu prefiro escalas de velocidade um pouco mais humanas. Perdi a pressa de chegar lá, pois percebi que o prazer pode estar no caminho.
(Escrito em papel, em Estocolmo, 23.08.2009)
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