Uma das melhores coisas que a Europa me fez foi, sem dúvida, me re-ensinar a andar de bicicleta. Meu pai me ensinou, Brasília me fez esquecer, e Tampere me trouxe a bicicleta de volta. Acabei de chegar da universidade, num clima inacreditável para o final de abril nesta cidade, com as bochechas rosadas do esforço de pedalar contra o vento (eu tô tão levinha, ou o vento estava tão forte, que se eu não pedalasse---em uma descida!---eu quase não me movia), trazida pela minha bicicletinha de 20 euros. Ainda não tirei foto da magrelinha, coitada. Mais uma tarefa para a to-do list.
No dia em que completei 18 anos, a primeira coisa que fiz foi me despencar para uma dessas clínicas para fazer o psicotécnico. Mal podia esperar pelo dia em que teria minha carteira de motorista. Eu sonhava com a liberdade, sonhava com meu carro, lavava o Palio cinza (qual era o nome dele mesmo? Clésio!) toda semana. Pouco mais de um ano depois, e depois de muitas horas detrás de um volante, dirigindo às vezes coisa de 100km por dia, eu descobri que eu detesto dirigir. Eu amava a liberdade que o carro me dava, mas sentia meus punhos travarem de nervosismo quando tinha que sair de um retorno na L2 Sul. Eu chorava ao perceber quantas horas do meu dia eu perdia daquele jeito.
Em Genebra eu descobri que outra realidade é possível, com ônibus elétricos, silenciosos e precisos, trams compridos e chacoalhantes, que me carregavam de cima a baixo por preços módicos. Descobri também que meu dinheiro não escoava pelo ralo como antes, sem um ente metálico para engolir todo o meu dinheiro em gasolina e manutenção.
Os ônibus de Tampere são tão bons quanto os de Genebra, pena que não são elétricos. É tão conveniente usar transporte público por aqui que eu até tenho como ver, em tempo real, quantos minutos faltam para o ônibus chegar na minha parada. Não tem um dia que eu não entre no ônibus e não pense em como eu amo andar de ônibus. Como eu amo a tranquilidade que me dá ser levada do ponto A ao ponto B sem me preocupar com batidas de carro ou engarrafamentos.
Mas durante o verão finlandês o que a gente quer é sentir vento morno na cara, ver as árvores ficando verdes e o céu ficando azul. As distâncias ínfimas daqui viabilizam a bicicleta para praticamente qualquer viagem. Não há noite. E dinheiro dos três meses do passe de ônibus pode ser muito bem redirecionado para atividades típicas do verão, como beber cerveja boa na beira de um lago.
Só uma coisa me entristece, e é pensar o que será de mim quando eu voltar a Brasília. Penso em estratégias para viabilizar o meu plano de nunca mais ter um carro na minha vida. Morar no Plano, trabalhar em algum lugar acessível pelo transporte público, ter uma bicicleta usada que ninguém queira roubar. Será que é mais arriscado andar de ônibus em Brasília do que andar sozinha em um carro? Assalto no ônibus, assalto no caminho entre a parada e o destino, ou sequestro-relâmpago no carro? Eu sinceramente não sei as estatísticas, mas devo procurar. Já penso em me mudar para Curitiba, só para poder manter para sempre minha independência dessas latas velhas e fedorentas.
Sim, porque junto à minha descoberta de que detesto dirigir, me veio a consciência de que eu odeio carros. Odeio o fato de que nossas sociedades giram em torno dele. Odeio as propagandas que nos fazem associar carro com liberdade. Odeio o fato de que nos sentimos no direito de andar sozinhos em monstros de uma tonelada. Odeio que eles sejam mais convenientes, então nos tornamos seres intolerantes, incapazes de esperar, incapazes de compartilhar, incapazes de ceder espaço ou abrir concessões.
Odeio sentir que eu preciso de um carro.
Odeio ter medo de perder mais uma pessoa querida em acidentes com esses tanques de guerra.
Se eu me candidatar à presidência, lembrem-se de não votar em mim. Porque se eu for presidente, eu proíbo os carros para todo o sempre.
lecczz | 27 May, 2009 - 07:27
Vc e a Ira têm mto em comum em relacão a questões ambientais e políticas (de público, não de política partidária). É maneiro isso.
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