(Este post continua contando o que aconteceu seguindo minha chegada em Tampere. Depois dele, eu fui pra Barcelona, pro Brasil, e um mês depois, estava de volta em Tampere. Continuemos.)
Enquanto eu estava no Brasil, a Jana estava em Portugal com a família dela. Ela voltou para Tampere alguns dias antes de mim, e encontrou o apartamento já com nossas duas colegas de apê, a Magda e a Katja. Quando eu liguei avisando que tinha chegado no aeroporto de Helsinki, embarcando no ônibus que ia me levar para Tampere, ela já me disse: e tem dois caras morando no apê também, amigos de uma delas.
Ainda bem que a Jana me ajudou a carregar as malas e a pegar o ônibus para casa, pois por conta da maneira anestesiada como me comportei nos primeiros dias na nova cidade, eu não fazia a menor ideia de como andar pelo lugar. Aliás, hoje é engraçado passar pelos mesmos lugares e lembrar ter visto as mesmas coisas naqueles primeiros dias, sem no entanto registrar nada direito.
Enfim chegamos no prédio. O ventinho já não estava mais tão confortável, o sol já não se deitava tão tarde, e o apartamento agora estava cheio. Que diferença. Cheio de coisas, utensílios de cozinha, sapatos na entrada, poeira nos cantos, e um inglês quebrado, típico, que só intercambistas conhecem.
A primeira impressão que tive de nossas flatmates não foi tão marcante. Seus nomes eram Magda, uma polonesa loira, parecidíssima com a atriz do Homem-Aranha, e Katja, uma alemã tímida, que quase não falava e quase não saía do quarto. No começo, como eu e Jana estávamos o tempo todo em nosso quarto e falando nossa língua, e provavelmente também porque as duas já tinham tido umas 3 semanas juntas no apartamento, a Magda e a Katja acabaram ficando mais próximas entre si do que conosco.
Sobre os hóspedes, a Magda explicou que os meninos, amigos dela e também poloneses, estavam sem lugar para ficar, e tinham que aguardar o TOAS (companhia que provê acomodação para estudantes aqui em Tampere) resolver o problema deles. Não seria muito tempo, uns 10 dias. E eles ficariam no quarto dela, sem nos incomodar. Por mim não havia problema. Até porque o mais baixo deles tinha uma razoável semelhança com o Jude Law, e, como descobrimos mais tarde, um interessante hábito de sair do banheiro depois do banho só de toalhinha, o que o rendeu, entre eu e Jana, o carinhoso apelido de "tanquinho".
Além do inevitável ar de república do apartamento, tínhamos um problema a mais. Quilos e quilos de bagagens, de nós duas juntas, e apenas duas portas de armário. A solução foi arrumar caixas de papelão para as meias e calcinhas, e manter as roupas dentro das próprias malas e debaixo das camas. Ou onde coubesse. O quarto, evidentemente feito para abrigar um só estudante de intercâmbio, normalmente vindo da Europa e com uma quantidade limitada de roupas, nem de longe serviria para duas garotas vindas de outro continente, carregando, cada uma, uma verdadeira mudança. Além da falta de espaço para as roupas, ainda tínhamos que dividir a escrivaninha. Uma sentava de um lado, e outra sentava de outro.
Eu estava longe, muito longe, daquilo que eu tinha como ideal de meu espaço. Mas nas primeiras semanas eu ainda me esforçava para ver apenas o lado bom das coisas. E o lado bom realmente era bom: eu estava alcançando um sonho, o de estudar fora, e morando "sozinha" (no sentido de longe dos meus pais). Ainda que em Genebra eu já tivesse experimentado o que era morar "sozinha", me incomodava o fato de estar alugando quarto no apartamento de outra pessoa. Agora, no Mikontalo, eu realmente estava no mesmo nível que as outras flatmates, tinha tanto direito quanto elas sobre o espaço. Parece bobo, mas isso era muito importante para mim.
O efeito prático desse sentimento foi o meu zelo com a limpeza do lugar. Era só ver uma bola de poeira nos cantos ou areia no hall de entrada, que eu pegava a minha vassoura e dava um jeito. Não demorou muito para eu perceber que a quantidade de poeira que acumulava no apartamento não parecia ser normal, especialmente para um lugar onde as janelas ficavam fechadas o tempo todo. Ou o sistema de ventilação jogava toda aquela craca pra dentro, ou no Brasil eu simplesmente não via poeira acumulando porque sempre tinha alguém limpando pra mim. Acho que havia um pouco dos dois. O banheiro, eu o limpava toda semana, lutando contra a crosta de sujeira acumulada no fundo do vaso. Um dia peguei a velha cortina de banheiro amarela e resolvi dar um fim em todo o mofo acumulado na barra. Em outro, tentei, sem sucesso, limpar o difusor de ar da cozinha (uma onipresente bolinha branca parecida com esta daqui, típica de lugares onde as janelas ficam mais fechadas do que abertas), que certamente em seus dias de juventude era branco, e não marrom.
No total, passamos, ou melhor, aguentamos, dois meses e meio no Mikontalo. Eu cheguei no dia 25 de agosto de 2007, e nos mudamos para o centro no dia 10 de novembro. Toda vez que penso que foram menos de três meses, me assusto. Pareceram no mínimo seis, entulhadas num quarto. Tínhamos que lidar com pulsos doídos, resultado de muito tempo nos respectivos computadores com pouco espaço na única escrivaninha e com cadeiras pouco confortáveis. Tínhamos que negociar horários, pois eu gostava de acordar cedo, mas a Jana tem sono leve (eu até comprei um despertador que vibra para tentar levantar cedo sem incomodá-la, mas até a vibração do alarme a acordava). E tínhamos que lidar com o mau-humor e depressão típicos do início do inverno, que começava a nos pegar pelo pé e puxar para baixo.
Antes de contar sobre como e para onde nos mudamos em novembro, vou falar sobre Hervanta e sobre os primeiros dias na universidade.
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