Recebi uma pergunta por e-mail sobre quanto custa morar na Suíça. Daí me dei conta de que nunca escrevi sobre isso por aqui, apesar de ser uma informação importantíssima para quem está planejando arrumar as malas e se mudar. Então resolvi escrever este post e deixar a informação disponível para outros possíveis interessados.
(Lembre-se de que esta é apenas a minha experiência. Também não garanto que as informações são corretas e atuais.)
Morando na Europa
De maneira geral, a impressão que tenho de morar como estudante ou estagiária na Europa é que, ao contrário do que acontecia comigo no Brasil, é muito fácil prever os custos mensais. Primeiro que você vai ter que vir com um seguro-saúde já pago, e segundo que provavelmente você não vai ter um carro. Esses dois custos eram certamente os vilões do meu planejamento no Brasil. Sabendo exatamente quanto pagar por transporte por mês (eu pago o passe mensal do ônibus) e não precisando me preocupar com gastos médicos, planejar para onde vai o dinheiro vira uma realidade. E sinceramente, é uma das coisas que eu amo aqui na Europa - a sensação de controle sobre a minha vida.
Além disso, outra coisa bem marcante para mim aqui é que parece que todo mundo recebe dinheiro suficiente para o básico e normalmente ainda sobra um pouco para a diversão. Pão e circo garantidos até para o faxineiro, motorista de ônibus e o gari. Aliás, aqui na Finlândia, se esse pessoal recebe por volta de, sei lá, uns 1800 euros por mês, um gerente da Nokia recebe não muito mais que uns 4 mil. Com imposto progressivo, o governo morde muito mais do gerente, claro. O resultado é uma sociedade razoavelmente igualitária, mas onde todo mundo sabe que ninguém fica rico trabalhando.
O que é caro no Brasil é barato aqui - eletrônicos e celular, principalmente. O que é barato no Brasil é caríssimo aqui - comida, álcool, serviços em geral (faxineira, manicure, cabeleireiro). Mas por mais que o custo de vida daqui seja maior do que no Brasil, já que as coisas "básicas" são mais caras, qualquer salário que você receba vai ser suficiente para se manter e ainda sobre um pouquinho para um cineminha de vez em quando.
Na Suíça
Em Genebra, meu salário de estagiária era exatamente a metade do salário mínimo de lá, que na época era 3000 SFr. Com 1500 SFr por mês eu pagava 700 SFr pelo aluguel do meu quarto, 45 SFr pelo passe mensal do ônibus durante o inverno (no verão eu caminhava porque era mais gostoso), por volta de 15 SFr por mês de celular, e talvez uns 200 SFr de supermercado. Você vê, com metade de um salário mínimo, ainda sobrava uns 400 SFr para peruar pelo país quase todo fim de semana.
Eu dei sorte, porque o quarto que arranjei estava com um preço muito bom. O normal é pagar uns 900 SFr por um quarto em Genebra. Se você estiver disposto a morar na França (os arredores de Genebra ficam na França), consegue pagar por volta de 600 num quarto, mas acaba tendo que desembolsar mais no transporte.
Agora, o que notei também é que, com metade de um salário mínimo de lá, restaurante e cinema são programas para ocasiões especiais. No começo foi um baque, pois eu ia ao cinema e jantava fora quase toda semana quando morava em Brasília. Mas eu preferi guardar o dinheiro que sobrava para viajar para as cidades próximas.
Na Finlândia
Ser estudante na Finlândia, se você é finlandês, é um sonho. Além de receber por volta de 300 euros por mês como auxílio para estudos por 55 meses e receber 80% do valor do seu aluguel (tem um limite máximo para o valor do aluguel, claro), os estudos são financiados pelo governo e você ganha um carteirinha de estudante que dá preços especiais no almoço nos restaurantes das universidades (por volta de 2,50 euros por refeição), no transporte público (33 euros por mês aqui em Tampere) e 50% de desconto nos ônibus de longa distância e trens no território nacional. Não é de se espantar que aqui estão os funcionários do McDonalds mais bem educados do mundo.
(Os preços abaixo são o que eu observei aqui em Tampere, que é a terceira maior cidade da Finlândia. Em Helsinki, o preço de alojamento, transporte e dos restaurantes certamente é maior, mas creio que não há diferenças significativas de preço em supermercados.)
Mas mesmo para os estrangeiros, estudar aqui é financeiramente viável. Não se paga pela universidade, mesmo que você não seja daqui ou da União Europeia (isso pode estar com os dias contados, mas é assunto para outro post...). Tem-se direito aos mesmos descontos que os finlandeses com a carteirinha de estudante. Os alojamentos de estudante, que oferecem quartos por valores tão baixos quanto 200 euros por mês, também não fazem nenhuma distinção se você é finlandês ou estrangeiro (tirando que normalmente os estrangeiros são alocados em prédios específicos que já contêm os móveis, criando uma espécie de segregação entre intercambistas e finlandeses).
Comida no supermercado aqui é ainda mais cara do que na Suíça, já que tudo é importado ou cultivado em estufas. Durante o verão o preço da comida cai significantemente. Eu sou vegetariana, então imagino que economizo um pouco por não precisar comprar carne no mercado (que também é muito cara por aqui), mas em compensação acabo comprando mais alimentos frescos, que são mais caros do que os congelados. Gasto mais ou menos uns 160 euros por mês com as compras, mais uns 30 a 40 euros almoçando fora, principalmente na universidade.
Nos restaurantes, normalmente uma refeição vegetariana não sai por menos de 15 euros, enquanto um prato com algum tipo de carne deve ser por volta de 20 euros. A não ser, é claro, que o restaurante seja um chinês ou uma pizzaria-kebab. Daí dá para comer bastante por menos de 10 euros. Por causa dos preços relativamente altos dos restaurantes, acabo jantando fora pouquíssimas vezes por mês.
Em resumo, consigo manter minhas despesas básicas mensais por volta de 500 euros. O que é exatamente a quantia que o governo finlandês exige para conceder o visto de estudante para estudantes de fora da UE.
Arrumar um trabalho aqui não é tarefa impossível, mas exige paciência e interesse. Paciência para procurar, interesse em buscar e em aprender alguma coisa da língua finlandesa. Estudantes podem trabalhar, sem necessidade de permissão especial, por até 25 horas semanais (em média) durante o período de aulas (setembro-maio) e período integral nos meses do verão (junho-agosto). Quem trabalha paga a pesada carga de impostos finlandesa, independente de ser estrangeiro ou não. No final das contas, um trabalho razoável paga no mínimo uns 9 euros por hora, o que dá uns 720 euros por mês. Desconte o imposto (ele varia com o que você recebe), que nessa faixa salarial ainda é razoavelmente baixo, e você fica com algo como 670 euros. Suficiente para viver uma vida de estudante :)
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Acho que é isso. Se faltou alguma coisa, mande um e-mail que eu atualizo o post com mais informações.
gimoll | 23 April, 2009 - 01:21
vai viver com 1 salário mínimo no brasil! Meu Deus!
acho q é R$ 465,00... numa cidade grande, Rio, SP, não se vive propriamente...
adorei seu post!
Ah, essa ajuda do goveno finlandês é automática se vc é aceito ou é preciso aplicar?
Existem bolsas de auxílio de custo de vida para mestrandos em que podemos aplicar?
bjuus
gilda
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»maira | 28 May, 2009 - 05:14
Oi Gilda!
A ajuda do governo finlandês é apenas para os finlandeses ou para imigrantes que foram ao país por outro motivo que não seja estudo. É por isso que eles exigem uma comprovação de renda para emitir o visto, porque eles não vão dar o auxílio que os estudantes normalmente ganham. Mas, se você se mudou pro país com visto de trabalho ou por causa de família, daí é tratado como os outros finlandeses e tem direito ao auxílio. Nesse caso, tem que pedir no KELA, que é o escritório de seguridade social daqui.
Sobre bolsas para mestrado, tem algumas, sim, mas não é fácil de conseguir. O mestrado aqui é considerado undergraduate, então não tem um esquema de financiamento tão bom quanto o doutorado. Mas existe o programa do Erasmus Mundus, que dá bolsa para mestrado, e em alguns casos especiais, pode ser que exista algum financiamento de algum órgão. Aqui na Finlândia, o CIMO é o órgão que dá esse tipo de auxílio.
Beijos!
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