Sobre ferrovias no Brasil

Eu escrevi há algum tempo sobre a viagem a Paris, onde encontrei o Rodrigo, amigo meu de Brasília. Na ocasião, ele comentou brevemente que ia voltar para casa e terminar a monografia de conclusão do curso de publicidade sobre trens - ou melhor, a falta deles - no Brasil. Ele tinha viajado tanto por meio desse tipo de transporte pela China e depois pela Europa, e sabe-se que é um sistema de transportes tão mais eficiente do que o transporte rodoviário... Por que será que não temos trens no Brasil?

Eu adorei o tema, mas não pensei muito na monografia em si. Pensei mais em minhas próprias experiências e, não sem um tanto de egoísmo, sonhei com um dia em que eu não precisaria mais temer viagens de avião porque poderia simplesmente subir em um trem de noite em Brasília e amanhecer em Salvador. Ah, o mar...

Eu tenho pensado muito em alternativas de transporte no Brasil, mas meus esforços mentais têm se concentrado no transporte urbano, e não entre cidades ou estados. Mas o objetivo final das minhas elocubrações e da monografia do Rodrigo é basicamente o mesmo: melhorar as condições de vida nas cidades e no país como um todo, e criar uma sociedade ecologicamente e economicamente sustentável.

Então, não foi sem uma enorme alegria e imensa curiosidade que eu cheguei ao link para a versão final da monografia do Rodrigo sobre os trens no Brasil. Ele me convidou para uma comunidade no Orkut (vou colocar o link no final deste post) sobre o tema e, lá, colocou um link para o download de sua monografia.

Devorei até agora 100 das 134 páginas do PDF com prazer. Primeiro, porque o texto é super bem escrito; segundo, porque o tema me interessa, e muito; e por último, mas não menos importante, porque me faz feliz ver amigos meus fazendo coisas boas, bem-feitas. Me dá um orgulho danado!

Também me faz feliz ver que há pessoas no nosso país (e na minha universidade do coração, a UnB) que fazem mais do que simplesmente reclamar ou lamentar por causa dos problemas; pesquisam, analisam, e oferecem soluções.

Eu sabia pouco sobre ferrovias no Brasil. Queria que o país tivesse estradas de ferro para passageiros, mas não tinha idéia de por onde começar. O assunto me parecia um caso perdido. Agora vi que não é bem assim, e grande parte dessa idéia de que as ferrovias não existem porque simplesmente foram abandonadas e pronto não é de todo verdade. Bom, ainda não cheguei ao final do texto e não quero falar sobre ele sem ter lido todo, mas tem muitas coisas ali que valem a pena serem divulgadas se quisermos que a situação mude.

Então, se o tema interessa a você, leitor, eu recomendo os seguintes links:

- Comunidade "Movimento dos Sem Trem" no Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=41547015
- Link para download da monografia do Rodrigo, "A Reconstrução do Sonho Ferroviário": http://rapidshare.com/files/95481609/A_reconstru__o_do_sonho_ferrovi_rio...

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Bônus (retirado da mesma monografia citada acima)


7 mitos sobre o trem no Brasil

1- Trem é coisa do passado: trens lentos e ferrovias sucateadas são sim, coisa do passado. Nas maiores economias do mundo, assim como nas que mais crescem, a ferrovia ocupa papel de destaque e vive momento de ampliação, como na Europa e na China.

2- É inviável recuperar, reconstruir ou ampliar a malha ferroviária. Seria caro, trabalhoso e é mais realista melhorar a situação das rodovias e aeroportos: melhorias nas estradas e aeroportos não resolveriam o problema de uma forma ampla; questões como a saturação e a degradação do meio ambiente persistiriam, mesmo com a adoção de biocombustíveis. No caso das rodovias, nem sempre os acidentes são causados pela condição das estradas; atualmente eles custam mais de R$20 bilhões ao ano. A própria administração pública já emitiu a opinião de que boas estradas seriam um incentivo à “ousadia no volante”, preferindo focar seus esforços na conscientização do motorista. Além disso, as maiores pontes aéreas do mundo transportam entre 4 e 6 milhões de passageiros por ano – e estão saturadas ; o total de pessoas viajando entre Rio de Janeiro e São Paulo já chegou aos 6,5 milhões em 2007, com estimativas de um crescimento para 17,3 milhões em 2023. Por que não investir na ferrovia, que pode atender, anualmente, de 10 a 15 milhões de passageiros?

3- Os países que hoje utilizam bem a ferrovia sempre a tiveram, assim como uma cultura arraigada de trem; no Brasil é mais difícil, pois o projeto seria começado quase do zero: sim, a maior parte da malha férrea tem de ser reparada ou trocada, devido a limitações como mau estado ou bitola estreita. Para alguns trechos devem ser encontrados trajetos mais econômicos, outros, ainda, só existem no projeto. Isso dá trabalho, consome recursos, mas nações como a China e o Japão já passaram por este mesmo processo; uma quase completa reconstrução de suas ferrovias. Hoje essas nações colhem os frutos de sua determinação e investimentos.

4- É antieconômico: nem antieconômico, nem anti-financeiro. Sobre o moderno transporte ferroviário, considera-se que este fornece ao usuário possibilidades maiores e mais acessíveis de trabalho, lazer e segurança, gerando mais riquezas para o país como um todo, embora não implique em alto retorno financeiro ao investidor. Para estes fins, existe o trem-bala.

5- Não há dinheiro: O BNDES garante que sim, afirmando que o problema é a falta de bons projetos. Se realmente não há dinheiro, por que o Brasil se candidataria a sediar uma copa do mundo?

6- Não há demanda: certamente não para trens ruins, lentos e desconfortáveis. O moderno trem comum pode alcançar velocidades de até 200 km/h. São mais seguros, rápidos e confortáveis que os ônibus ou automóveis e, ainda, mais acessíveis que os aviões.

7- Isso só dá certo na Europa ou no Japão: nos países do chamado “terceiro mundo” ou “em desenvolvimento” também há trens; a Rússia, a Índia e a China, por exemplo. Eles fazem parte do mesmo bloco econômico que o Brasil (BRIC), têm problemas e desafios sociais parecidos, além de dimensões continentais, assim como nós.


Rodrigo (not verified) | 19 March, 2008 - 16:53

Valeu a força, Maíra!

Felizmente, hoje podemos usar a conexão elétrica da internet e sua contribuição no direito à informação para tentar resgatar o nosso direito a algo igualmente fundamental; nosso direito à mobilidade.

A curto prazo não conseguiremos nada; a médio, mais e mais gente refletindo sobre o tema e; a longo prazo, quem sabe, bons transportes no Brasil!

Abração;

Rodrigo

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Givaldo (not verified) | 29 November, 2008 - 00:09

Olha só como a net muda muito as coisas: quando é que eu conseguiria saber que tem uma monografia em Brasília falando sobre ferrovia através de alguém que está na Finlândia? Eu tenho procurado pesquisar as ferrovias na cidade de São Paulo e, aproveitei a possibilidade para pegar mais um material falando sobre o assunto. É legal vocês saberem que tem muita discussão atualmente sobre o assunto no país, principalmente depois do "caos aéreo" e do "nó" no trânsito em SP.
Eu tenho pesquisado mais sobre cultura.... vamos ver o que aparece...
Lerei o texto do seu amigo Rodrigo com muito interesse...
Quem sabe nos trombaremos num futuro trem Brasília-Goiânia ou no trem bala (espero que não seja perdida, né?) Campinas-São Paulo-Rio de Janeiro....
Inté

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